Seja Feita a Tua Vontade, na Terra como e no Ceu

20 dezembro, 2014Alfabeto HebraicoPor Israel do Nascimento Silva


Há dois aspectos que estão intimamente relacionados com a vontade de Deus, e que se encaixam perfeitamente na colocação das palavras de Jesus, quando ensinava os seus discípulos a orar, "seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu" Mateus 6:10.

Nesse sentido, a Torá descreve dois atos de obediência: A Criação do Mundo e A Criação do Tabernáculo - um protótipo do Templo que mais tarde seria construído em Jerusalém por Salomão.

A conexão entre esses dois grandes eventos não é acidental. É crescente o número de estudiosos do Antigo Testamento, que vem notando o paralelismo que a linguagem bíblica usa para descrevê-los.

Sumário da Criação do Mundo e a Criação do Tabernáculo:
A Criação do Mundo A Criação do Tabernáculo
criou Deus o céu Gênesis 1:1 E me farão um santuário Êxodo 25:8
E fez Deus os dois grandes luminares Gênesis 1:16 Também farão uma arca de madeira de acácia Êxodo 25:10
E fez Deus as feras da terra Gênesis 1:25 Também farás uma mesa de madeira de acácia Êxodo 25:23
E viu Deus tudo quanto tinha feito, e eis que era muito bom Gênesis 1:31 Viu, pois, Moisés toda a obra, e eis que a tinham feito; como o Senhor ordenara, assim a fizeram Êxodo 39:43
Assim os céus, a terra e todo o seu exército foram acabados Gênesis 2:1 Assim se acabou toda a obra do tabernáculo da tenda da congregação Êxodo 39:32
E havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera Gênesis 2:2 Assim Moisés acabou a obra Êxodo 40:33
E Deus os abençoou Gênesis 1:28 então Moisés os abençoou Êxodo 39:43
Deus o dia sétimo, e o santificou Gênesis 2:3 e tudo o que há nele; e o santificarás com todos os seus pertences, e será santo Êxodo 40:9

Sem dúvidas, há uma grande semelhança no estilo de ambos os textos, de forma que o segundo lembra muito o primeiro. Assim como Deus criou o mundo e o universo, do mesmo modo Ele instruiu os Israelitas para a construção do Mishkan, o Tabernáculo.

E depois da saída do Egito, o Tabernáculo foi o primeiro grande ato colaborativo e participativo do povo de Deus. Assim como o universo se iniciou através de um ato de criação, semelhantemente a história de Israel como nação se inicia com o ato da construção do Santuário.

As palavras "fazer", "ver", "santificar" e "obra", são as mesmas presentes nas duas narrações. O que traz a sugestão de que a construção do Tabernáculo equivalia para os Israelitas como a construção de um "universo", um "mini-universo pra Deus".

seja feita a tua vontade

Seja Feita a Tua Vontade

Temos que renunciar a nossa vontade, e fazer a de Deus!

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Os escritores da Midrash (o sentido simbólico do texto), com base nessas semelhanças exemplificaram muito bem essas ligações:

"Vem sendo ensinado que no dia [que o Tabernaculo foi inaugurado] houve alegria diante de Deus, abencoado seja Ele, como no dia em que o ceu e a terra foram criados " Sifra Megilla 10b

Esta é uma comparação explícita entre a criação do Mishkan e a Criação do mundo. Agora, um dos mais impressionantes paralelos entre as duas narrativas é a citação de figuras que só aparecem na Torá por duas vezes, os Querubins.

Os querubins entram na história do Gênesis como anjos guardiões que, após a queda e o exílio de Adão e Eva do jardim do Éden, foram postos para impedir que o homem tivesse acesso à Árvore da Vida.

No Tabernáculo, os Querubins eram elementos posicionados em cima da Arca da Aliança, que continha as Tábuas com os Dez Mandamentos, a Palavra de Deus, descrita no livro de Provérbios como a "árvore de vida para os que dela tomam, e são bem-aventurados todos os que a retêm." Provérbios 3:18

Isto também sugere que o Tabernáculo simbolizava um tipo de תיקון tikkun, o conserto de algo que foi quebrado há muito tempo, no Éden, a comunhão perfeita entre Deus e o homem, e a harmonia que havia entre o ser humano e a natureza.

Deus havia formado o homem e depois a mulher com suas próprias mãos, uma expressão simbólica de Seu amor, bondade e intimidade. Mas como resultado do pecado, o primeiro casal humano foi expulso do jardim e da presença de Deus.

Mas apesar disso, Deus em busca do homem começa a traçar uma linha para a reaproximação e o resgate dos Seus filhos perdidos, "E me farão um santuário, e habitarei no meio deles." Êxodo 25:8

O Tabernáculo era símbolo da construção de nossos corpos como uma casa santa, onde Deus voltaria a habitar no meio e dentro do Seu povo. E era também a representação visível da Presença Divina, que ficaria localizada sempre no centro do acampamento Israelita.

Quando o povo seguia em jornada pelo deserto, o Tabernáculo e seus elementos juntamente com a שכינה Shekhinah, a Divina Presença, também viajariam. Quando o povo parasse para descansar eles também "descansariam".

Os Israelitas não teriam mais a Presença de Deus somente em tempos de milagres ou de crises. Agora a Sua Presença os acompanharia por todos os dias, na vida diária, uma constante epifania e revelação espiritual.

E mesmo que venhamos a perceber essas similaridades entre as duas passagens acima citadas, ainda assim há questões que precisam ser analisadas com mais profundidade.

Há notadamente uma disparidade entre a duração das duas narrativas. A Criação do Mundo é descrita em apenas trinta e quatro versos no livro do Gênesis, o capítulo 1 mais o primeiro verso do Gênesis 2. A criação do Tabernáculo toma centenas de versos do livro do Êxodo, do capítulo 25 ao 40.

Porque essa diferença? O universo é tão vasto, e o Santuário tão pequeno. E ainda, a história do Tabernáculo é contada por duas vezes no Êxodo, uma antes e outra depois do pecado do Bezerro de Ouro.

A primeira parte (Êxodo 25-30) fala das instruções divinas para a sua construção. A segunda (Êxodo 35:4-40) consiste na descrição de como as instruções foram seguidas. Porque esta passagem seria contada duas vezes?

E quando toda obra é terminada, qual seria o sentido de encontrarmos Deus em uma construção humana, um local limitado? Deus é maior e mais vasto do que todo o universo com seus bilhões de galáxias. Poderia alguém pensar em construir uma casa que pudesse conter Deus?

A resposta para nossos questionamentos parece estar profundamente envolvida com o texto dos dois últimos capítulos do Êxodo. No capítulo 39 a frase, "como o SENHOR ordenara a Moisés" é repetida sete vezes. No capítulo 40, a mesma sentença é encontrada também por sete vezes, descrevendo como Moisés edificou o Tabernáculo.

Em ambos capítulos, essas sete repetições parecem remeter aos sete dias da Criação, e as sete vezes que Deus chama o que criou, no Gênesis, de "bom".

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O que é mais fantástico sobre a narrativa bíblica sobre a Criação é a proeminência da Vontade Divina. Deus ordena pela Sua Palavra, e o mundo vem a existir. Não há nenhuma dificuldade ou batalha cósmica para que isso aconteça.

A Vontade de Deus reina de forma suprema!

Tudo segue o seu curso perfeito, até que Deus cria o homem e dá a ele o livre arbítrio. O ser humano foi a primeira e única, até os dias de hoje, forma de vida criada com a capacidade de autoconsciência e de tomar decisões em desacordo com a vontade divina.

Tudo de bom que o ser humano pode fazer, vem dessa capacidade de possuir liberdade de escolha. Porém, da mesma fonte pode advir o mau. Há muitas vontades em jogo. Cada grupo humano tem interesses distintos.

Quando duas vontades diferentes conflitam, é inevitável que resulte em violência. Os conflitos vem dessa colisão de vontades, que acabam por terminar em violência, batalhas e guerras, lutas para dominar e subjugar a vontade alheia.

O único tikkun, a única forma de reparar um mundo cheio de conflitos, é renunciando a nossa vontade para se submeter à vontade de Deus.

"Entao disse Jesus aos seus discipulos: Se alguem quiser vir apos mim, renuncie-se a si mesmo" Mateus 16:24

"Venha o teu reino, seja feita a tua vontade, assim na terra como no ceu;" Mateus 6:10

"todavia nao se faca a minha vontade, mas a tua." Lucas 22:42

Quando nós escolhemos fazer a vontade de Deus, nós agimos em benefício de todo o universo criado. Os interesses das outras pessoas passam a ser considerados, e não somente os nossos. Consequências duradouras, de médio e longo prazos importam mais do que satisfazer desejos imediatistas e temporários.

Nos tornamos um com o Criador quando renunciamos a nossa vontade, em favor da boa e perfeita vontade do infinito Deus, que tudo sabe, que tudo conhece.

Mas esta é uma ideia profunda, muito clara hoje em dia, mas que precisou ser trazida para o campo palpável, concreto e visível nos dias em que Moisés liderava um povo que ainda não compreendia as particularidades da espiritualidade de Deus.

De alguma forma, esta espiritualidade precisava ser simbolizada e materializada em um modelo vivo e concreto, para testemunho de todo o povo de Deus. E era isso que o מִשְׁכָּן Mishkan - o Tabernáculo - representava.

O Tabernáculo era uma espécie de microcosmos, micro-universo, criado por seres humanos em total obediência à Palavra de Deus. Por isso há no texto do Êxodo 39, por sete vezes, a repetição das palavras "como o Senhor ordenara a Moisés".

Deus falou e os Israelitas fizeram, assim como no בראשית bereshit, no Princípio, quando Deus falou e os elementos obedeceram. E também esclarece por que a mesma história é contada por duas vezes neste mesmo capítulo. A primeira parte mostra o mandamento divino; já a segunda mostra a resposta humana a este mandamento.

Agora nós entendemos porque a construção do Tabernáculo é contada em tantos detalhes. É para nos ensinar que nada foi feito com base na iniciativa humana, pois a santidade não é algo que parte do homem, somos incapazes de qualquer tipo de auto-purificação. A santidade é algo que vem de Deus para o homem.

Cada medida do Tabernáculo, cada item, cada vaso, representava a vontade de Deus, que foi seguida e obedecida de forma voluntária, por seres humanos livres, que decidiram livremente e de coração aceitar a vontade divina e renunciar a sua própria.

O Tabernáculo espelhava o universo, para nos dizer que nós também podemos ser "criadores de universos", mas somente se aceitarmos a vontade de Deus para as nossas vidas, caso contrário nos tornaremos destruidores deste mesmo universo.

O Significado do Tabernaculo

O significado do Tabernáculo não era que Deus habitava aquela tenda, nem em qualquer outro lugar. O significado era que Deus habita em todo lugar onde nós aceitamos fazer a Sua vontade e renunciamos a nossa. O Tabernáculo simbolizava um espaço no universo onde a vontade de Deus reinava de forma suprema.

Isto explica a inexplicável frase que a midrash traz, quando diz, "Aquele que na noite de sábado recita em sua oração, 'Assim os céus, a terra e todo o seu exército foram acabados' (Gênesis 2:1) é considerado com se tivesse participado com o Santo dos Santos, abençoado seja Ele, na obra da Criação".

Certamente nós teríamos uma expectativa diferente, de que seríamos parceiros de Deus na Criação quando nós criássemos alguma coisa, e, não no Shabbat, quando os Judeus se restringem de criar qualquer coisa.

Entretanto, o que a midrash está querendo nos ensinar, é que precisamente, quando nós renunciamos a nossa vontade, em favor da vontade de Deus, como os Judeus faziam no sábado, é que nós nos tornamos parceiros de Deus na obra Criadora.

Era isso que o Shabbat, o sábado e o Tabernáculo representavam. O Sábado era a renúncia de tempo (o homem tem que separar tempo para buscar a Deus na sua vida), e o Tabernáculo, o espaço, fazendo exatamente o que Deus havia mandado, isso tudo no centro da alma, no coração, que era simbolizado pela posição que ficava localizado o Tabernáculo, no centro do acampamento Israelita - um ato de sacrifício.

Nós temos que renunciar a nossa vontade, e muitas vezes até mesmo sacrificá-la, não apenas de forma abstrata ou simbólica, mas de forma real e prática.

"Pois eu assim corro, nao como a coisa incerta; assim combato, nao como batendo no ar. Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo a servidao, para que, pregando aos outros, eu mesmo nao venha de alguma maneira a ficar reprovado." 1 Corintios 9:26-27

O universo é o espaço que Deus criou para os seres humanos, o Mishkan é o espaço que os seres humanos fizeram para Deus. James Kugel coloca esta ideia em termos bem simples, quando diz:

"porque para eles abrir um espaço para que Deus preenchesse. E isto é o princípio mais básico do nosso caminho, que é abrir um espaço em nossas vidas e nos nossos corações ... porque essa é a forma que deve ser, o homem cria este espaço e Deus irá preenchê-lo".



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