A Construção do Templo de Salomão e a Divisão das Tribos de Israel

Estudos Bíblicos15 Outubro, 2014Por Israel do Nascimento Silva


Um grande projeto coletivo se inicia no meio do deserto. Deus ordena a construção de um Santuário, o Mishkan.

Era a primeira casa de adoração na história de Israel, e serviria como memorial visível da divina Presença.

O chamado para este magnífico empreendimento, entretanto, traz uma linguagem não muito usual para aqueles dias:

"Então falou o SENHOR a Moisés, dizendo:

Fala aos filhos de Israel, que me tragam uma oferta alçada; de todo o homem cujo coração se mover voluntariamente, dele tomareis a minha oferta alçada." Êxodo 25:1-2

Repare que a ênfase do texto está na voluntariedade que as doações devem ter, "todo o homem cujo coração se mover voluntariamente". Porque seria assim?

Tratando-se da construção de um Santuário para o Deus que havia tirado este mesmo povo da escravidão do Egito, não deveriam eles sentirem-se obrigados a fazerem estas contribuições?

E o Santuário seria o lugar onde Deus estabeleceria as suas Leis, onde o preeminente domínio da santidade se manifestaria, e sem a Lei de Deus e a santidade o povo não poderia sobreviver no deserto.

Porque então do caráter voluntário da construção do Tabernáculo, se sem ele o povo não subsistiria?

Para entendermos esta passagem, teremos que avançar quase quinhentos anos na história de Israel, quando o rei Salomão decide construir o primeiro Templo dos Judeus. Esta história é uma das mais irônicas de toda a Bíblia.

Salomão e a construção do TemploO Povo Foi Praticamente Escravizado Durante a Construção do Templo.

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A Sabedoria de Salomão

Nossa impressão inicial é que שלמה Shelomo, Salomão foi de forma suprema, o rei mais sábio de todos. Ele tinha pedido sabedoria a Deus, que garantiu que a teria em abundância.

"E deu Deus a Salomão sabedoria, e muitíssimo entendimento, e largueza de coração, como a areia que está na praia do mar." 1 Reis 4:29

Durante o reino de Salomão, Israel atingiu o seu ápice tanto economicamente quanto politicamente. A construção do Templo era do ponto de vista bíblico como a conclusão do Êxodo.

E também de forma não usual, o texto nos informa da data do projeto, não em termos do tempo de reinado de Salomão, mas especificamente ligado ao tempo em que os Israelitas saíram do Egito:

"E sucedeu que no ano de quatrocentos e oitenta, depois de saírem os filhos de Israel do Egito, no ano quarto do reinado de Salomão sobre Israel, no mês de Zive (este é o mês segundo), começou a edificar a casa do SENHOR." 1 Reis 6:1

A referência ao Êxodo é impressionantemente proposital. Ela nos lembra da frase de Moisés, quando os Israelitas estavam prestes a entrar na Terra Prometida.

"Porque até agora não entrastes no descanso e na herança que vos dá o Senhor vosso Deus." Deuteronômio 12:9

Os comentaristas da Torá tomam esta frase como se fizesse referência a Jerusalém e ao Templo. Por isso, a construção de Salomão trouxe ao final a narrativa do Êxodo, o último capítulo de uma longa história.

Salomão Adora Deuses Estranhos

Mas ainda, não podemos deixar de notar que Salomão falhou como rei. A impressão inicial que temos do texto bíblico, é que o principal motivo de sua falha se deu em razão dele se casar com muitas esposas estrangeiras, que o levaram a mergulhar na idolatria.

"Assim disse o Senhor a Salomão: Pois que houve isto em ti, que não guardaste a minha aliança e os meus estatutos que te mandei, certamente rasgarei de ti este reino, e o darei a teu servo." 1 Reis 11:11

Entretanto, se observarmos esta passagem com mais atenção, veremos que a idolatria de Salomão e a consequente divisão do reino de Israel foi mais consequência da forma como o Templo foi construído.

A edificação do Templo de Salomão, o בֵּית־הַמִּקְדָּשׁ Beit haMikdash fez demandas gigantescas ao povo, com a consequente rebelião e divisão do reino. Após a sua morte, as dez tribos do norte de Israel seguiram a Jeroboão. Isto se consolidou em um ponto crítico na história dos Judeus.

Enfraquecidos pela divisão, foi questão de tempo até que ambos reinos caíssem para impérios poderosos que circundavam o povo de Deus naquela época. Mas a questão crucial é, como Jeroboão conseguiu se rebelar juntamente com as dez tribos do norte e obter sucesso?

Golpes de estado não dão certo quando uma nação está desenvolvida e em prosperidade econômica e em paz. Israel possuía todas essas características durante o reinado de Salomão.

Como então poderia Jeroboão montar um golpe com chances reais de conseguir tomar o poder e dividir o país em dois? A resposta pode ser encontrada no impacto que a construção do Templo teve sobre a vida dos cidadãos Israelitas.

A Construção do Templo de Salomão

"E o rei Salomão fez subir uma leva de gente dentre todo o Israel, e foi a leva de gente trinta mil homens;

E os enviava ao Líbano, cada mês, dez mil por turno; um mês estavam no Líbano, e dois meses cada um em sua casa; e Adonirão estava sobre a leva de gente.

Tinha também Salomão setenta mil que levavam as cargas [נֹשֵׂ֣א סַבָּ֑ל nose saval], e oitenta mil que talhavam pedras nas montanhas,

Afora os chefes dos oficiais de Salomão, que estavam sobre aquela obra, três mil e trezentos, os quais davam as ordens [הָרֹדִ֣ים harodim] ao povo que fazia aquela obra." 1 Reis 5:13-16

E a Bíblia informa que foi aquele árduo trabalho que fez o povo impaciente, após a morte de Salomão:

"Porque mandaram chamá-lo; veio, pois, Jeroboão e toda a congregação de Israel, e falaram a Roboão, dizendo:

Teu pai agravou o nosso jugo [עֻלֵּ֑נוּ ulenú]; agora, pois, alivia tu a dura servidão de teu pai, e o pesado jugo que nos impôs, e nós te serviremos." 1 Reis 12:3-4

Os Anciões, que foram conselheiros de Salomão, disseram a Roboão, filho de Salomão e sucessor no trono de Davi, para que aceitasse a proposta do povo, "Se hoje fores servo deste povo, e o servires, e respondendo-lhe, lhe falares boas palavras, todos os dias serão teus servos." 1 Reis 12:7

Roboão, porém, seguiu as palavras de seus jovens e impetuosos conselheiros, "se meu pai vos carregou de um jugo pesado, ainda eu aumentarei o vosso jugo; meu pai vos castigou com açoites, porém eu vos castigarei com escorpiões." 1 Reis 12:11

Deste ponto em diante, o destino de Israel como um reino unido estava selado. A divisão foi inevitável.

O Faraó Salomão?

Agora, analisando bem as palavras destes textos, principalmente como foram escritas no original hebraico, percebemos que algo estranho está se passando nas camadas mais profundas dessa passagem.

Em diversas ocasiões, vemos palavras que estão nos livros de Moisés, no contexto do Êxodo e da escravidão Egípcia.

As palavras "dura servidão", dirigidas a Roboão pelo povo e usadas para descrever o trabalho que Salomão fez recair sobre seus súditos, são as mesmas usadas no Êxodo para descrever a escravização dos Israelitas por Faraó.

A descrição dos transportadores de materiais de Salomão, נֹשֵׂ֣א סַבָּ֑ל "nosei saval", remete a quando "sendo Moisés já homem, saiu a seus irmãos, e atentou para as suas cargas [סִבְלֹתָ֑ם sivlotam] Êxodo 2:11

"Eu sou o Senhor, e vos tirarei de debaixo das cargas [סִבְלֹ֣ת sivlot] dos egípcios" Êxodo 6:6

O povo também usa a palavra עֻלֵּ֑נוּ "ulenú", "jugo", "Teu pai agravou o nosso jugo". Este é outro termo que remete à escravidão do Egito, "Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei da terra dos egípcios, para que não fôsseis seus escravos; e quebrei os timões do vosso jugo [עֻלְּכֶ֔ם ulekem]." Levítico 26:13

Os oficiais de Salomão são descritos como הָרֹדִ֣ים harodim, pois davam ordens ao povo. A raiz dessa palavra הָרֹדִ֣ים harodim é רָדָה radah "reinar", que está presente em Levítico 25, quando o texto fala para não escravizar o povo de Deus.

"Não te assenhorearás [תִרְדֶּ֥ה tirdeh] dele com rigor, mas do teu Deus terás temor." Levítico 25:43

Salomão construiu cidades-armazéns,"miskenot", "E a todas as cidades de provisões [מִסְכְּנוֹת֙ miskenot] que Salomão tinha" 1 Reis 9:19, a mesma palavra usada para descrever as cidades que os Israelitas construíram quando eram escravos de Faraó:

"E puseram sobre eles maiorais de tributos, para os afligirem com suas cargas. Porque edificaram a Faraó cidades-armazéns [מִסְכְּנוֹת֙ miskenot], Pitom e Ramessés." Êxodo 1:11

Assim como Faraó, Salomão tinha carros de combate, רֶ֔כֶב "rekev", e cavaleiros, פָּרָשִׁ֑ים "parashim", "Salomão tinha, e as cidades dos carros [רֶ֔כֶב rekev], e as cidades dos cavaleiros [פָּרָשִׁ֑ים parashim] 1 Reis 9:19

"E tomou seiscentos carros escolhidos, e todos os carros [רֶ֔כֶב rekev] do Egito" Êxodo 14:7

Claro que a Torá não diz explicitamente que Salomão escravizou os Israelitas, mas o texto nos dá pistas de que Salomão chegou muito perto de se tornar um Faraó Judeu.

A ironia é tremendamente esmagadora! Salomão foi o rei mais sábio que Israel já teve. O país atingiu em seu ápice em riqueza e poder. E ao menos naquele momento havia paz entre as nações vizinhas à Terra Santa.

Salomão estava envolvido com uma das mais santas tarefas - construir o Templo do Senhor, para completar o que se havia iniciado no Êxodo. Ainda assim, precisamente naquele momento, ele estava seguindo uma linha de ação que traria séculos de tragédia para o povo de Deus.

E porque?

Porque Salomão efetivamente tornou os Israelitas em uma força de trabalho obrigatória, sem opção de recusa ou de voluntariedade. Eram obrigados a trabalhar na construção do Templo.

Foram novamente transformados em uma força para trabalho laborioso - justamente do que Deus queria evitar, quando os havia libertado do labor do Egito.

E assim que percebemos essa obrigatoriedade laboriosa imposta por Salomão aos seus irmãos de nação, nós conseguimos entender o mandamento divino no que se refere a construção do Tabernáculo, objeto abordado no início do nosso estudo.

Olhai os Lírios dos Campos

"Fala aos filhos de Israel, que me tragam uma oferta alçada; de todo o homem cujo coração se mover voluntariamente, dele tomareis a minha oferta alçada." Êxodo 25:1-2

Isso se deve ao fato de que Deus não habita em construções feitas por mãos de homens, não em prédios de pedras e tijolos. Ao contrário, Deus habita nos construtores, nas mentes, nos corações e nas almas daqueles que se entregam voluntariamente a Ele.

O Templo de Salomão deveria ter sido construído a partir de doações voluntárias, assim como foi feito com o Tabernáculo. Fé sob coerção não é fé de verdade. Um Templo construído com labor obrigatório conflita com a própria natureza do Deus da liberdade.

Por um momento, Salomão se comportou como um Faraó Egípcio, e fez nascer frustração e ódio no povo, que explodiram logo após a sua morte, trazendo divisão ao reino e ao povo de Deus.

Por isso, não foi acidental a natureza do primeiro Santuário, o Tabernáculo, pequeno, frágil, portátil, mas que foi construído por meio de ofertas voluntárias, com liberdade de quem se propusesse a doar para a obra de Deus.

Deus não pode ser encontrado em construções monumentais, mas em corações livres que que queiram de entregar ao Senhor.

Muito adequadas a este tema são as palavras do nosso Mestre Jesus. Ele com maestria ilustrou esta verdade quando disse que nem Salomão em todo o seu esplendor conseguiu se vestir como um lírio do campo.

Porque os lírios exibem um beleza singela, frágil, porém gratuita, de graça, feitos pela graça de Deus, de forma voluntária, nunca obrigatória.

"Olhai para os lírios do campo, como eles crescem; não trabalham nem fiam; E eu vos digo que nem mesmo Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles." Mateus 6:28-29



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