À Meia-Noite na Terra do Egito

Estudos Bíblicos02 Junho, 2014Por Israel do Nascimento Silva


Após nove dolorosas pragas, os Egípcios estão prestes a receber um último duro e fatal golpe. Os primogênitos do Egito, desde Faraó, até ao menor cidadão na hierarquia daquela sociedade, seriam atingidos.

“E aconteceu, à meia-noite בַּחֲצִי הַלַּיְלָה chatzot halaylah, que o Senhor feriu a todos os primogênitos na terra do Egito, desde o primogênito de Faraó, que se sentava em seu trono, até ao primogênito do cativo que estava no cárcere, e todos os primogênitos dos animais.” Êxodo 12:29

Apesar das nove primeiras pragas terem deixado todo império Egípcio à beira da destruição, mais uma última sentença era necessária para se atingir o objetivo final de permitir que o povo de Deus saísse em liberdade.

“Então chamou a Moisés e a Arão de noite, e disse: Levantai-vos, saí do meio do meu povo, tanto vós como os filhos de Israel; e ide, servi ao Senhor, como tendes dito.” Êxodo 12:31

A décima praga, se diferencia das demais em diversas e significantes formas, uma das quais na sua eficiência em atingir a libertação de Israel. Uma outra importante característica, da última praga do Egito, é realçada pela tradição oral por ocasião dos cerimoniais da Páscoa Judaica, a Haggadah, que são lidas na Pesach seder:

“E o Senhor nos tirou do Egito com mão forte, e com braço estendido, e com grande espanto, e com sinais, e com milagres;” Deuteronômio 26:8:

“E o Senhor nos tirou do Egito”- não por meio de um anjo, ou qualquer outro serafim, e também não foi por meio de um mensageiro. Ao invés disso, foi por meio Dele, o Santo de Israel, abençoado seja, Ele mesmo, em pessoa, assim como está escrito:

“E eu passarei pela terra do Egito esta noite, e ferirei todo o primogênito na terra do Egito, desde os homens até aos animais; e em todos os deuses do Egito farei juízos. Eu sou o Senhor.” Êxodo 12:12 (Pesah Haggadah)

A morte do primogênito de faraóA Morte do Primogênito de Faraó.



À Meia-Noite

E quando chega o momento da praga final se manifestar, Moisés diz ao povo que ela começará חצות לילה chatzot halaylah, traduzido como “à meia-noite”. A própria tradição oral enumera uma longa lista de milagres e eventos que teriam ocorrido “ba’hatzi halaylah”, “no meio da noite”.

Uma narrativa bíblica que se passa à meia-noite é contada no livro de Shoftim, Juízes, capítulo 16, sobre שִׁמְשׁוֹן Shimshon, Sansão (homem do sol, do dia). É significante dizer que a sua queda foi causada por uma mulher chamada דלילה Delilah, Dalila, um nome que parece caracterizá-la como mulher “da noite”.

E desse padrão não usual de linguagem vemos emergir lições muito valiosas para o nosso aprendizado. As últimas três pragas enviadas ao Egito têm uma interessante característica em comum, escuridão, noite.

“Porque se ainda recusares deixar ir o meu povo, eis que trarei amanhã gafanhotos aos teus termos. E cobrirão a face da terra, de modo que não se poderá ver a terra;” Êxodo 10:4-5

“Porque cobriram a face de toda a terra, de modo que a terra se escureceu;” Êxodo 10:15

Quando os gafanhotos foram enviados ao Egito, eles cobriram a terra de tal forma que houve escuridão. E praga seguinte, a nona, aprofundou ainda mais a escuridão sobre os Egípcios:

“E Moisés estendeu a sua mão para o céu, e houve trevas espessas em toda a terra do Egito por três dias. Não viu um ao outro, e ninguém se levantou do seu lugar por três dias;” Êxodo 10:22-23

A décima praga, a morte dos primogênitos, o elemento final que está direta e intimamente ligada à redenção do povo de Deus, aconteceu à meia-noite - em um momento simbólico, na hora em que as “trevas reinam”.

Fato é que Jesus, na parte mais dramática de uma de suas parábolas, a parábola das dez virgens, usa uma linguagem muito similar a do Êxodo, em que também faz a ligação entre a redenção final de todos aqueles que crêem no seu nome com o momento em que as trevas estão em toda a sua força:

“Mas à meia-noite ouviu-se um clamor: Aí vem o esposo, saí-lhe ao encontro. Então todas aquelas virgens se levantaram, e prepararam as suas lâmpadas.” Mateus 25:6-7

Jesus, por meio desta narrativa, parecia querer estabelecer este elo com a última praga do Egito, comparando aquele evento com a sua futura vinda, ocasião em que se manifestará para salvar os seus discípulos e julgar a humanidade.

Também é interessante notar que naquela mesma noite os Hebreus estavam vestidos, e com seus calçados nos pés, e com seus cajados nas mãos, mesmo estando dentro de suas casas, ou seja, eles estavam preparados, aguardando atentamente o momento da redenção.

Esta é uma lição que fala de preparo e vigilância:

“Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora em que o Filho do homem há de vir.” Mateus 25:13

jesus está voltandoÀ Meia-Noite: Eis o Noivo.



Ra - Mal

E voltando ao Êxodo, vemos que todas as sete primeiras pragas parecem ter começado durante o dia, não ficando limitadas pelo ciclo dia e noite. Já as últimas três, ocorrem de forma diferente. E o que haveria de significante na forma comum que as três últimas pragas teriam entre si?

O diálogo entre Moisés e Faraó vão nos dar uma maior clareza sobre esse assunto. Em meio a essas três últimas pragas, que podem ser associadas a três níveis graduais de escuridão, Moisés exige que Faraó liberte toda a nação Israelita, tanto os jovens como os idosos.

A resposta de Faraó precisa ser examinada com atenção.

“E Moisés disse: Havemos de ir com os nossos jovens, e com os nossos velhos; com os nossos filhos, e com as nossas filhas, com as nossas ovelhas, e com os nossos bois havemos de ir; porque temos de celebrar uma festa ao Senhor.”

“Então ele lhes disse: Seja o Senhor assim convosco, como eu vos deixarei ir a vós e a vossos filhos; olhai que há mal [ רָעָ֖ה rah ] diante da vossa face. Não será assim; agora ide vós, homens, e servi ao Senhor; pois isso é o que pedistes. E os expulsaram da presença de Faraó.” Êxodo 10:9-11

Faraó parecia querer avisar Moisés e Arão que a participação de toda a congregação na celebração de culto ao Senhor, era uma má ideia. A palavra que ele usa para descrever este evento é רָעָ֖ה rah, comumente traduzida como mal.

Algo muito estranho, pois Faraó nunca tinha se preocupado com o bem-estar dos filhos de Israel, até aquele momento. Seria esta palavra de Faraó um aviso, ou uma profecia que antecipava uma terrível calamidade que recairia sobre os hebreus no deserto?

O rabino Rashi, em seus estudos, relata uma interpretação, desses versos, que relaciona a a palavra rah com Ra, o deus sol. Segundo esta interpretação Faraó seguia uma previsão astrológica que indicava que sangue seria derramado no deserto, e que a deidade Ra seria vitoriosa no final.

E esta interpretação parece ser assinalada por Moisés, quando os Israelitas pecaram no episódio do bezerro de ouro, e Deus ameaçou destruí-los, os argumentos de Moisés em defesa dos filhos de Jacó fazem referência à mesma palavra ra’ah, o mesmo mal, ou à mesma deidade Egípcia.

“Por que hão de falar os egípcios, dizendo: Para mal [בְּרָעָ֤ה be’ra’ah] os tirou, para matá-los nos montes, e para destruí-los da face da terra? Torna-te do furor da tua ira, e arrepende-te deste mal contra o teu povo.” Êxodo 32:12

Se Deus tivesse consumido aquela nação, os Egípcios iriam dizer que ra/Ra os tinha matado. A previsão de Faraó e seus astrólogos teria dado certo, a sua fé na vingança do deus sol haveria sido recompensada, os Egípcios clamariam que o seu deus era mais poderoso.

É este o argumento que Moisés utiliza para dissuadir Deus de levar a execução da Sua justiça adiante. Deus aceita a intercessão de Moisés e o povo é poupado.

A Morte dos Primogênitos

E é neste contexto que devemos voltar a praga da morte dos primogênitos. Deus avisa a Moisés que a sentença está a caminho, e acrescenta uma informação crucial para o nosso entendimento:

“E eu passarei pela terra do Egito esta noite, e ferirei todo o primogênito na terra do Egito, desde os homens até aos animais; e em todos os deuses do Egito farei juízos. Eu sou o Senhor.” Êxodo 12:12

Não seriam apenas os primogênitos atingidos, mas todos os deuses do Egito que serão esmagados pelo peso da mão de Deus. Nesse contexto, de fato, é um aspecto unicamente inerente à décima praga.

As deidades do Egito foram todas derrotadas: O Nilo era visto como um deus no Egito, considerado como fonte de vida, sustento e prosperidade. E as três primeiras pragas atingem diretamente o rio Nilo, algo de tremenda significância teológica para os Egípcios.

Moisés uma vez se dirigiu a Faraó em sua capacidade como o “deus do Nilo”. É no aspecto do poder de Faraó que Moisés foi enviado para falar com ele às margens do rio Nilo.

Foi na sua total capacidade como membro do panteão de deuses do Egito que Faraó foi ameaçado com as pragas, e que ele respondeu invocando o poder de Ra. Ele não era um deus pequeno ou desconhecido no Egito. Ra era o deus sol, o mais poderoso de todas as deidades Egípcias.

Por isso, juntamente com as últimas três, as pragas devem ser entendidas como a derrota das maiores crenças da religião Egípcia.

Os gafanhotos tornaram o dia em noite, derrotando o deus sol. Logo em seguida, a praga das trevas aprofundou ainda mais a escuridão, acabando com o mito do deus sol completamente. Três dias sem sol, nem luz, arruinando a reputação de Ra.

Agora a última praga, lança seu ataque à meia-noite. Com a morte dos primogênitos, Faraó capitula e o povo de Deus é liberto após 430 anos de escravidão. Seja como for, de dia ou à noite, à meia-noite ou à luz do dia, o Senhor é Deus e não há outro.

E Ele há de vir, mesmo que o reino das trevas esteja em toda a sua força, “à meia-noite”.

Ele prometeu, o noivo chegará, demonstrando que Ele era, e que é o mesmo Deus que uma vez derrotou os deuses Egípcios (simbolizando os deuses desse mundo) e tornará a derrotá-los novamente, mas agora de uma vez por todas.

Ele tem todo o poder. Dia e noite, luz e trevas, são apenas elementos sob o Seu domínio.

“Eu formo a luz, e crio as trevas; eu faço a paz, e crio o mal; eu, o Senhor, faço todas estas coisas.” Isaías 45:7



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