A Torre de Babel - Linguas, Confusão e Inversão

Estudos Bíblicos26 Setembro 2013Por Israel do Nascimento Silva


A história da Torre de Babel, situada logo no início na pré-história, é um dos acontecimentos que mudaram a história da humanidade, que ilustra muito bem o que pode dar errado nas civilizações e nas sociedades.

A curta narrativa contada em apenas nove versos é uma obra-prima compacta de literatura e virtuosidade filosófica. A primeira característica notável é sua precisa descrição histórica.

A torre, também chamada de zigurate, era o maior símbolo das cidades estados do vale do Tigre-Eufrates, na antiga Mesopotâmia, o berço da civilização. Foi neste local que os primeiros grupos humanos se fixaram, desenvolveram a agricultura e passaram a construir cidades.

E o Gênesis chama a atenção para a habilidade que possuíam de fabricar materiais de construção, especialmente tijolos (não só tijolos, mas também a roda, o arco e o calendário). Os tijolos eram feitos de barro, cozidos ao sol ou queimados ao forno, "E disseram uns aos outros: Eia, façamos tijolos e queimemo-los bem. E foi-lhes o tijolo por pedra, e o betume por cal". Gênesis 11:3.

Este conhecimento tornou possível a construção de prédios em grande escala, atingindo alturas jamais vistas até aquele momento. Apartir daí que o zigurate começou a crescer em tamanho, com vários níveis de muitos andares e milhares de degraus para se chegar ao seu topo, e que possuía um significado religioso profundo.

a torre de babelA Torre de Babel Foi o Maior Zigurate da História.

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Essas torres, em sua essência (as ruínas de pelo menos trinta foram descobertas), configuravam-se em "montes santos" construídos pelo homem, onde o céu e a terra pareciam se encontrar.

"E disseram: Eia, edifiquemos nós uma cidade e uma torre cujo cume toque nos céus," Gênesis 11:4.

Inscrições encontradas nestas construções, que foram decodificadas por arqueologistas, se referiam à idéia de seu topo "atingindo os céus". O maior deles, o grande zigurate de Babel do qual fala o Gênesis, era um edifício de sete andares com 91,44 metros de altura, uma construção sem precedentes para a época.

A história da Torre de Babel não é apenas precisa em descrever os fatos e o meio histórico-cultural em que se desenvolve a narrativa. Está repleta também de recursos literários, inversões e jogos de palavras no original hebraico. Isso porque a maioria das palavras em hebraico, podem ser quebradas e reduzidas à sua raiz, à matriz de cada palavra, composta de três consoantes, que contém a essência do significado daquela palavra.

Um exemplo que ilustra bem essa característica do hebraico escrito é o familiar ensinamento Talmúdico que nota a similaridade entre as palavras banayikh (seus filhos) e bonayikh (seus construtores), e sugere que Isaías 54:13 "E todos os teus filhos/construtores serão estudantes do Senhor; e a paz de teus filhos/construtores será abundante", o que indica que todos aqueles que estudam a palavra de Deus são chamados construtores da paz.

Voltando ao Gênesis, um dos recursos literários mais notadamente conhecidos no texto, tem a ver com o jogo de inversão de palavras da raiz hebraica l-v-n, "tijolos", com n-v-l, "confusão", que são precisamente inversões uma da outra. Essa técnica literária está relacionada a uma mensagem moral e espiritual muito importante no Gênesis.

Neste caso, o jogo de palavras chama a atenção para o fenômeno da inversão de papéis entre o divino e o humano, uma certa tendência entre os descendentes de Adão. O resultado do comportamento humano resulta frequentemente no oposto do que foi intencionado.

Os construtores queriam concentrar a humanidade em um só lugar "e façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra" Gênesis 11:4. O resultado foi que eles foram dispersados por todo o mundo. "Assim o Senhor os espalhou dali sobre a face de toda a terra; e cessaram de edificar a cidade" Gênesis 11:8. Eles queriam e fizeram um "nome" para eles mesmos, mas o nome Babel tornou-se o símbolo eterno de confusão.

ruínas da torre de babelA Confusão das Línguas Impediu a Construção da Torre de Babel.

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A Confusão das Línguas

E eles estavam super orgulhosos na sua mais recente descoberta tecnológica, a capacidade de construir edifícios em uma escala nunca vista até aquele ponto. Eles só não sabiam que o maior poder criativo de todos é a linguagem e não o conhecimento técnico.

Através da linguagem nós formamos nossas idéias imaginativas, construímos possibilidades e convocamos outras pessoas para nos ajudar a torná-las em realidade. As palavras precedem o trabalho. Não foi um problema técnico que impossibilitou a continuação da construção da Torre de Babel, mas a inabilidade de se comunicar.

Nesta narrativa, podemos encontrar algumas palavras que nos trazem ricos significados espirituais. A primeira está na frase que abre e fecha este episódio, kol ha-aretz, "toda a terra". "E era toda a terra de uma mesma língua e de uma mesma fala" Gênesis 11:1.

A outra palavra é o vocábulo hebraico shamayim, "céus", o lugar que os construtores da Torre de Babel tentavam profanar. A temática do texto bíblico fica então bem clara, esta é uma história sobre céu e terra, o que faz com que retornemos ao capítulo 1 do Gênesis, onde vemos Deus criando os céus (shamayim), e a terra (aretz).

A descrição da criação em Gênesis 1 fala mais da bondade de Deus em criar um universo bom e cheio de ordem, do que sobre o seu poder. Os antigos pagãos orientais viam o mundo como um lugar cheio de perigos, maldades, ameaças, desastres, fomes e dilúvios. O universo que enxergavam, era o resultado de batalhas entre poderes cósmicos, personificados por conflitos entre os "deuses".

Mas há uma outra palavra chave envolvida na criação, sua raiz hebraica é b-d-l, "separar, dividir, distinguir", que aparece cinco vezes no capítulo 1 de Gênesis, e que traz importantes verdades sobre a criação. A bondade da criação reside na ordem e na ordenação dos elementos, representados por fronteiras e separações. Deus separou diferentes domínios.

No primeiro dia - luz e trevas; no segundo - águas acima da expansão e águas abaixo; no terceiro dia - dia e noite; no quarto dia - sol e lua; no quinto - pássaros e peixes; no sexto dia - animais e a espécie humana. Cada domínio foi preenchido com formas de vida apropriadas aos respectivos ambientes.

A visão que o Gênesis passa é que ordem é sinônimo de bondade. O mal é desordem. A palavra het, "pecado", vem de um verbo que significa "errar o alvo". A palavra avera, "transgressão", significa "ultrapassar os limites e entrar em um local proibido". Muitos dos hukkim, "estatutos", dos hebreus são sobre o ensinamento do respeito que devemos ter pela ordem natural estabelecida no universo.

A própria criação trouxe ordem ao caos em que os elementos estavam no princípio. O físico Gerald Schroeder, afirma que esta ordenação do universo está presente implicitamente nas palavras hebraicas erev (tarde) e boker (manhã). "E foi a tarde (erev) e a manhã (boker), o dia primeiro" Gênesis 1:5. Erev em hebraico significa "uma mistura sem diferenciação de elementos". Boker vem de uma raiz que tem por significado "refletir, contemplar, buscar esclarecer".

bebel, homens querem ser deusOs Homens Queriam Ser Divinos em Babel.

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Ordem e Bondade

Um universo ordenado é um universo de paz, em que cada ser, seja ele humano ou inanimado, tem o seu lugar apropriado. Violência, injustiça e conflito são formas de desordem - fracassos em respeitar a integridade das diferentes formas de vida e de cada pessoa.

No mundo mitológico, contra o qual as escrituras sempre protestaram, nenhum limite é respeitado. Lá, deuses e humanos se confundem. Há homens deuses e semi-deuses. E ainda há seres estranhos, híbridos, metade humanos e metade animais.

Esse era o estado em que estava o universo antes do dilúvio, quando "viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra" Gênesis 6:12.

Estas quebras de barreiras e de domínios é que trazem o caos e a desordem. Deus criou os limites para trazer ordem e bondade, o homem frequentemente quebra estes limites, e com isso cria o caos, gerando resultados inevitavelmente destrutivos.

O limite mais fundamental que Deus criou foi a diferenciação entre o céu e a terra. Deus não pode ser representado por nada do que há na terra. "Os céus são os céus do Senhor; mas a terra a deu aos filhos dos homens" Salmos 115:16. Esta divisão ontológica é fundamental: Deus é Deus, homem é homem. Ninguém pode cruzar esta fronteira.

Este foi o maior pecado dos construtores da Torre de Babel. Sua aspiração em "atingir os céus" era risível, e o Gênesis com seus jogos de palavras e inversões, faz piada deles. Uma construção com 91,44 metros e eles pensavam que tinham chegado "aos céus". Era realmente risível a pretensão que eles tinham em se tornar seres divinos.

Intoxicados pela sua proeza tecnológica, acreditavam que eles tinham se tornado "deuses" e poderiam construir seu próprio mini-universo. E não se contentando em dominar a terra apenas, agora partem para invadir o domínio divino. Este é um erro que muitas civilizações cometeram e o resultado foi catastrófico. O espírito de Babel esteve presente e ainda está, em muitas ações humanas na história.

Um exemplo recente que temos, é o deixado pelos nazistas, que se intitulavam "raça pura, ariana, divina", e veja todos os crimes que cometeram. Quando seres humanos tentam ser mais do que humanos, eles rapidamente se tornam desumanos. Graças a Deus, somente Ele é Deus, pois somente quando aceitamos que Ele é Deus, é que podemos ser totalmente o que somos, humanos, e exercer toda a nossa humanidade.

E assim mantemos a distinção do céu e da terra, organizando a terra sempre debaixo da consciente soberania dos céus. Somente quando respeitamos os limites da criação é que impedimos os seres humanos de destruírem-se mutuamente, na ânsia utópica de serem reconhecidos como seres mais "altos", "divinos", de "raça superior".

O mundo que Deus criou é um mundo de limites, e o ser humano tem limites e tem que respeitar a ordenação dada à criação.



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