E Falou Caim com Seu Irmão Abel

Estudos Bíblicos19 Novembro 2013Por Israel do Nascimento Silva


“E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou.” Gênesis 4:8

A história da segunda geração da raça humana se revela tragicamente. Caim קַיִן (Kayn) e Abel הֶבֶל (Hevel), os filhos de Adão e Eva, trazem cada um a sua oferta a Deus.

Deus aceita a oferta de Abel, mas rejeita Caim e seus esforços. Incapaz de lidar com rejeição divina, aparentemente sem razão, um furioso Caim emerge, ataca e mata o seu irmão, eliminado para sempre o seu rival em potencial.

Deus, em resposta a este terrível homicídio, decreta que Caim viveria, apartir de então, exilado, expulso da convivência social da época.

Analisando o texto de Gênesis 4:8, podemos perceber que há uma omissão intrigante, notadamente logo no momento clímax da história dos dois irmãos. A Torah afirma, “E falou ( ויאמר va'yomer ) Caim com o seu irmão Abel”, porém não é registrada nenhuma pista do conteúdo da conversa ocorrida entre os filhos de Adam e Chava.

E o que Caim teria dito a Abel? Porque o Gênesis inicia essa conversação, mas não faz o seu registro por completo? Note que em hebraico temos duas palavras que possuem o significado da palavra "falou", va'yedaber e va'yomer.

A palavra hebraica va'yedaber (falou) é usada para simplesmente informar que uma conversa foi iniciada. Mas no texto em estudo, a palavra utilizada é va'yomer (falou), que na Torah sempre se refere a um tipo específico de comunicação verbal, e que invariavelmente é seguido pelo texto da conversa em questão.

Mas nesta passagem, o texto da possível conversa que teria ocorrido entre Caim e Abel, não é registrado. Qual seria o motivo?

caim falando com abelCaim Diz Algo ao Seu Irmão Abel.



A Tradição Oral Sobre Caim e Abel

Níveis de Interpretação

O rabino Hilel (20 A.C.), estudioso da Lei de Moisés, construiu sete métodos de interpretação, que foram posteriormente expandidos para 13, pelo rabino Ishmael (primeira metade do século segundo D.C.). Estas "regras", ou métodos foram ainda aumentados para 32 pelo rabino Eliezer, que também viveu no século segundo da nossa era.

A aplicação desses métodos resultou em uma série de "leis", chamadas de Halachot, que estão compiladas nos livros Mechilta, Sifri, e Sifra. Estes livros compõem uma forma de literatura de interpretação literal denominada Midrash Halachá.

Há também uma série de conteúdos, escritos pelos sábios e estudiosos do Antigo Testamento, que não são de natureza literal, mas sim de interpretações alegóricas, simbólicas, onde várias figuras de linguagens são utilizadas para tentar chegar à mensagem principal que o texto bíblico quer nos transmitir.

Esse conjunto de histórias simbólicas recebe o nome de Midrash Agadá, presente em livros como o Midrash Rabá, Pessicta e Tanchumá. Essas obras trazem chaves de interpretação muito valiosas, que nos ajudam a entender o sentido real ( a Peshat) dos textos bíblicos.

E falou Caim Com o Seu Irmão Abel

Os estudiosos, na Midrash Rabá (o sentido simbólico), sugerem três diálogos que poderiam ter levado à triste confrontação física entre os dois irmãos, e que culminou na morte de Abel:

1. Os irmãos teriam resolvido dividir o mundo. Um deles tomou posse de toda a terra, enquanto que o outro reivindicou a posse de todas as coisas móveis. Assim que esta divisão se deu, um deles disse ao outro:

"Você está em minha propriedade, toda a terra é minha!", enquanto que o outro respondeu: "E as roupas que você está usando são minhas, todas as coisas me pertencem!"

Uma luta se iniciou, e Caim matou Abel.

2. A conversa deles não teria se dado em relação à possessão material, mas teria sido sobre o Beit Hamikdash, o Templo de Salomão, que seria construído séculos depois da história de Caim e Abel. Ambos teriam reclamado domínio sobre o Templo.

E por isso uma luta se iniciou e Caim Matou Abel.

3. A briga não teve como motivo nenhuma das possibilidades acima citadas. Caim e Abel teriam se confrontado por causa de sua mãe, Eva, ou por uma de suas irmãs. Uma luta se iniciou e Caim matou Abel.

Entendendo o Texto

Como podemos ver, a Midrash levanta mais dúvidas do que respostas. Poderiam os estudiosos conhecer o conteúdo de uma conversa, sobre a qual o texto bíblico nada revela? E ainda mais, essas sugestões parecem ser mais bizarras do que o próprio texto bíblico em si.

Como poderíamos considerar que Caim e Abel tivessem discutido a respeito de quem teria a posse do Templo de Salomão? O conceito do Templo, o Beit Hamikdash, só apareceria séculos depois da morte dos filhos de Adão e Eva.

De forma semelhante, não há nenhuma evidência de que Caim e Abel teriam se confrontado em razão de uma disputa por terra, riqueza material ou por causa de uma mulher.

tecnologia para matarDesde Caim e Abel, Nos Tornamos Melhores em Matar.



O Sentido Real e o Figurado

Posto deste modo, como nós utilizaríamos a abordagem da Midrash, esta ferramenta tão importante e que nos auxilia tanto na compreensão das histórias bíblicas, para melhor entendermos a história de Caim e Abel?

Esta aparente "estranha" interpretação nos fornece na verdade, o ponto de entrada no "mundo" da Midrash Ragadá, que é muito interessante se devidamente compreendida. Há uma grande diferença entre o "mundo" da Peshat (a interpretação real) e o da Midrash (o sentido simbólico).

A Peshat busca o significado direto do texto, onde tudo é literal e concreto. Porém, no mundo da Midrash as regras de interpretação mudam completamente. Os Midrashim (estudos) são veículos, através dos quais os estudiosos da Lei e do Antigo Testamento, usando os textos bíblicos como ponto de partida, transmitem lições e ensinamentos significantes.

Por isso os Midrashim não são tomados de forma literal, nem entendidos como explicações do sentido específico de uma passagem bíblica.

Então, nestas possibilidades do diálogo possivelmente ocorrido entre Caim e Abel, a Midrash não está apenas tentando esclarecer somente a história do primeiro fratricídio, mas também oferece este primeiro evento violento da história humana como um modelo dos confrontos físicos ocorridos através do tempo, em todas as eras.

Ao examinarmos o curso da história da humanidade, o homem vem assassinando os seus irmãos motivado pela disputa por ganho material (posses e riqueza), ou por causa da religião (representada pelo Templo de Salomão), ou por causa do desejo por mulheres.

Todo o derramamento de sangue humano, e todos os conflitos e guerras entre as nações, estão, de uma forma ou de outra, ligados a esses três motivos básicos.

A Morte de Abel Continua a Ser Praticada

Este Midrashim serve como um sóbrio aviso de que o homem não mudou, e não se moveu nem um milímetro para fora do campo do assassinato de Abel. A despeito do progresso social, nada, fundamentalmente mudou no ser humano. As causas de conflitos tem permanecido notavelmente constantes em todas as épocas.

Se havia uma esperança no século 20, era de que o progresso científico-cultural e tecnológico seriam automaticamente acompanhados de um relevante avanço moral também. Mas as guerras mundiais, os genocídios, as atrocidades praticadas com o auxílio da tecnologia, só nos mostraram que nos tornamos melhores em matarmos uns aos outros.

Um Convite Para Participar da História

Então, mais uma vez levantamos a questão: Porque a Torah não nos informa o que Caim disse para Abel? Porque inicia uma conversa cujo conteúdo deliberadamente deixa de ser registrado?

Esta, sem dúvida, é uma omissão proposital, em que podemos dizer que Deus deseja a nossa participação, preenchendo o vazio deixado. Algumas vezes um texto bíblico é deixado desta forma porque Deus quer nos fazer parceiros na construção da história.

Deus nos desafia a ler a quantidade indeterminada de possíveis lições presentes nesta passagem, e que são relevantes para nossas vidas. O Gênesis não registrou as palavras que Caim disse a Abel, porque Deus quer nos fazer entender que aquelas palavras, sejam quais fossem, não justificam o ato cruel de Caim.

Algumas vezes um ato é tão moralmente corrupto que a sua causa ou motivação é irrelevante, nenhuma desculpa pode ser oferecida. Nada pode justificar o ato odioso de matar o seu irmão, nada pode justificar isso, não importa o que tenha sido dito nesta conversa.

E através dessa omissão no texto, a bíblia nos passa uma mensagem que é terrivelmente aplicável ao nosso tempo. Não importa qual seja a causa, violência e assassinato cometidos contra vítimas inocentes, são inescusáveis.

Deus quer que saibamos que Caim disse algo para Abel. Porém, Ele quer que saibamos também que o que Caim disse é irrelevante. Nós somos informados que uma conversa aconteceu, mas não somos informados do conteúdo da conversa.

A bíblia é assim, algumas vezes ela nos ensina não pelo que foi escrito, mas por aquilo que se deixou de escrever.



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